Laser na regeneração articular: o que a ciência mais recente revela sobre cartilagem e fotobiomodulação
- Virginia Ferreira

- há 4 dias
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Durante muito tempo, a cartilagem articular foi considerada um tecido sem retorno. Quando lesionada ou degenerada, como ocorre na osteoartrose, o objetivo terapêutico costumava se limitar ao controle da dor e da inflamação, não à recuperação estrutural.
Mas a ciência mudou esse cenário.
Nos últimos anos, a fotobiomodulação a laser tem se destacado como uma estratégia não invasiva capaz de modular processos celulares diretamente envolvidos na regeneração da cartilagem articular, influenciando o metabolismo condral, a resposta inflamatória e a preservação da matriz extracelular.
E isso representa uma mudança relevante de paradigma na abordagem das doenças articulares.
Não estamos falando apenas de analgesia temporária. Estamos falando de modulação biológica do tecido articular, com impacto real nos mecanismos que determinam a progressão ou o freio do dano condral.
Por que a cartilagem articular tem tão pouca capacidade de regeneração?
A cartilagem articular é um tecido altamente especializado, responsável por reduzir atrito, distribuir cargas e proteger o osso subcondral. Sua principal limitação é estrutural. Trata-se de um tecido avascular, aneural e com baixa densidade celular, o que restringe sua capacidade de autorreparo após uma lesão.
Em condições como a osteoartrose, esse cenário se agrava devido a inflamação sinovial persistente, aumento de citocinas catabólicas, ativação de metaloproteinases que degradam a matriz e alteração do metabolismo dos condrócitos.
O resultado é um ambiente biológico desfavorável à regeneração espontânea da cartilagem, mesmo quando há estímulo mecânico ou reabilitador adequado.
Como a fotobiomodulação atua no metabolismo da cartilagem
A fotobiomodulação a laser atua em nível celular, principalmente por meio da absorção de fótons por cromóforos mitocondriais, como a citocromo c oxidase.
Esse processo desencadeia uma cascata de efeitos biológicos relevantes, incluindo aumento da produção de ATP, modulação das espécies reativas de oxigênio em níveis fisiológicos, regulação de citocinas pró e anti-inflamatórias e estímulo à proliferação e diferenciação celular.
No contexto articular, esses efeitos contribuem para a criação de um microambiente mais favorável à preservação e regeneração da cartilagem, especialmente em situações de inflamação crônica de baixo grau.
O que a evidência científica mais recente mostra sobre laser na regeneração articular
Uma revisão narrativa publicada em 2025 no International Journal of Molecular Sciences analisou estudos in vitro, in vivo e clínicos sobre o uso da fotobiomodulação na regeneração da cartilagem articular.
Os resultados são consistentes e biologicamente plausíveis. Observa-se preservação da integridade da cartilagem articular, redução da expressão de metaloproteinases degradativas, aumento da síntese de colágeno tipo II e proteoglicanos, diminuição de marcadores inflamatórios e melhora da espessura e da organização da matriz cartilaginosa.
Esses efeitos foram observados em modelos de osteoartrose de joelho, artrite inflamatória e disfunções da articulação temporomandibular.
A evidência indica que a fotobiomodulação não atua apenas como recurso analgésico, mas como uma ferramenta capaz de interferir nos mecanismos biológicos que sustentam a saúde articular.
Comprimento de onda e dose como fator determinante dos resultados
Um ponto central destacado pela literatura é a dependência direta dos resultados em relação aos parâmetros utilizados.
Os estudos com melhores desfechos empregaram laser vermelho entre 600 e 660 nanômetros, infravermelho próximo entre 800 e 880 nanômetros e Nd:YAG 1064 nanômetros em contextos específicos.
Há variações importantes de fluência, energia total e frequência de aplicação de acordo com a profundidade da articulação, o estágio da doença e o objetivo terapêutico, seja analgesia, modulação inflamatória ou estímulo regenerativo.
Isso explica por que, na prática clínica, alguns profissionais observam resultados expressivos, enquanto outros concluem que o laser não funciona.
Na maioria das vezes, não é o recurso que falha, mas a forma como ele é aplicado.
O erro mais comum no uso do laser em articulações
A articulação não é um tecido estático. A cartilagem não responde da mesma forma em todos os pacientes. E a osteoartrose não é uma condição homogênea.
Aplicar laser de forma protocolizada, sem leitura tecidual e sem compreensão do contexto biológico, limita severamente o potencial terapêutico da fotobiomodulação.
O uso clínico do laser exige raciocínio clínico, compreensão da fisiopatologia, ajuste consciente de parâmetros e reavaliação contínua do tecido.
Quando esses elementos estão presentes, o laser deixa de ser um recurso acessório e passa a ser uma ferramenta clínica estratégica.
O futuro da regeneração articular é multimodal
A evidência atual aponta que os melhores resultados ocorrem quando a fotobiomodulação é integrada a uma abordagem multimodal. Essa abordagem inclui exercício terapêutico bem dosado, controle adequado de carga articular, estratégias anti-inflamatórias e estímulos mecânicos apropriados.
O laser não substitui o raciocínio clínico. Ele exige raciocínio clínico.
É justamente essa exigência que diferencia uma prática automatizada de uma prática verdadeiramente baseada em evidências.
Para quem trabalha com dor, articulação e movimento
Se sua prática clínica envolve pacientes com osteoartrose, dor articular crônica, disfunções inflamatórias ou reabilitação musculoesquelética, compreender como e por que a fotobiomodulação atua sobre a cartilagem articular já não é opcional.
Isso faz parte da atualização profissional responsável e baseada em ciência.
A evidência já respondeu o que funciona. O desafio atual é saber aplicar com critério.

Referência científica
Hang NLT, Aviña AE, Chang CJ, Yang TS. Photobiomodulation in Promoting Cartilage Regeneration. International Journal of Molecular Sciences. 2025;26(12):5580.

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