Dosimetria na laserterapia: o erro silencioso que pode estar travando seus resultados clínicos
- Virginia Ferreira

- há 13 minutos
- 3 min de leitura
Nem todo tratamento que estagna está errado. Alguns estão apenas… bem-intencionados demais.
Se você já sentiu que um atendimento com laser parecia tecnicamente correto, mas clinicamente parado, este texto é para você. Porque, na maioria das vezes, o problema não está no equipamento, nem na potência escolhida, nem sequer na indicação. O que costuma travar os resultados é algo mais sutil, mais biológico e, por isso mesmo, mais fácil de passar despercebido: a forma como o tecido responde à luz.
Na laserterapia e na fotobiomodulação, a ideia de que “quanto mais, melhor” simplesmente não se sustenta. E insistir nesse raciocínio pode ser um dos erros mais silenciosos e mais caros da prática clínica.
Na prática clínica, a dosimetria na laserterapia é o principal fator que determina a resposta biológica do tecido à luz e a previsibilidade dos resultados. Mais do que tempo de aplicação ou modelo de equipamento, é a forma como a energia é entregue ao tecido que define se haverá estímulo, regeneração ou inibição do processo terapêutico.
A Lei de Arndt-Schulz e a resposta real do tecido à luz

A resposta biológica à luz não é linear. Ela não cresce em linha reta conforme aumentamos a dose. O que a ciência demonstra há décadas é um comportamento bifásico, descrito pela Lei de Arndt-Schulz e amplamente confirmado pela literatura contemporânea em fotobiomodulação.
Na prática, isso significa que:
Doses baixas demais não atingem o limiar fisiológico necessário para iniciar o reparo tecidual.
A dose adequada ativa vias celulares, mitocondriais e bioquímicas relacionadas à regeneração.
Doses excessivas podem gerar efeito foto-inibitório, reduzindo ou até bloqueando a resposta terapêutica.
Mais energia, portanto, não significa mais efeito. Em alguns casos, significa exatamente o oposto.
Um exemplo simples que explica tudo
Pense em uma planta.
Se você não rega, ela seca. Se rega na medida certa, ela cresce. Mas se encharca o vaso, a raiz sofre e pode morrer.
Com o laser acontece algo muito semelhante. O excesso de energia, seja em Joules, irradiância ou densidade de energia, pode literalmente “afogar” a célula, interferindo negativamente nos mecanismos de reparo e adaptação.
O que a ciência moderna já deixou claro sobre dosimetria
As revisões mais atuais publicadas no PubMed mostram que a fotobiomodulação não pode ser compreendida como um simples sistema de liga e desliga.
O artigo Feeling the Heat: Evolutionary and Microbial Basis for the Analgesic Mechanisms of Photobiomodulation Therapy descreve que os efeitos analgésicos e terapêuticos do laser envolvem mecanismos complexos, como:
Modulação da cadeia de transporte de elétrons mitocondrial
Ativação de proteínas desacopladoras
Resposta de proteínas de choque térmico
Microvariações térmicas intracelulares com impacto biológico real
Todos esses processos dependem criticamente de uma dosimetria bem pensada. Uma dose inadequada não apenas reduz o efeito terapêutico, como pode ativar vias celulares contrárias ao objetivo clínico.
Intensidade importa e muito
Outro ponto frequentemente negligenciado é que a lei da reciprocidade nem sempre se aplica à fotobiologia.
O artigo Near-Infrared Light and Skin: Why Intensity Matters demonstra que prolongar o tempo de aplicação não compensa uma irradiância inadequada. Irradiâncias excessivas, por outro lado, podem induzir efeitos deletérios. Existe um intervalo fisiológico ideal, um verdadeiro “sweet spot” biológico, compatível com intensidades semelhantes às encontradas na radiação solar.
Na prática clínica, isso significa que não basta calcular a dose final. É fundamental compreender como essa energia é entregue ao tecido e em que contexto biológico ela está sendo aplicada.
Onde muitos profissionais se perdem
O erro não está no laser. Está no uso automático.
Protocolos repetidos sem reavaliação, parâmetros aplicados por hábito e não por leitura tecidual, decisões desconectadas do objetivo biológico. Tudo isso leva àquilo que raramente é nomeado, mas frequentemente vivido: a estagnação terapêutica.
Quando o raciocínio clínico dá lugar à repetição, o tecido deixa de responder.
Laserterapia não é apertar botão
Fotobiomodulação eficaz exige leitura de tecido, compreensão da fase inflamatória, entendimento da profundidade e do alvo terapêutico, além de ajustes finos de parâmetros conforme o objetivo clínico.
A diferença entre resultados inconsistentes e resultados previsíveis não está no equipamento utilizado, mas na forma como a dosimetria é pensada.
Quando a dosimetria na laserterapia deixa de ser número e vira decisão clínica
Profissionais que compreendem a ciência por trás da luz deixam de depender de protocolos genéricos e passam a construir resultados mais seguros, consistentes e reprodutíveis.
Nesse ponto, a dosimetria deixa de ser um cálculo mecânico e passa a ser uma estratégia clínica. Uma decisão baseada em biologia, evidência e leitura tecidual.
Porque, na laserterapia, mais não é melhor.
Melhor é melhor.
E a verdadeira diferença entre usar laser e dominar a fotobiomodulação não está no aparelho que você comprou, mas nas perguntas clínicas que você aprendeu, ou não, a fazer antes de aplicá-lo.

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